Literatura e lagartas
László Krasznahorkai e Lewis Carol no mesmo post não foi nada planeado. São coisas que acontecem.
Há muitas coisas da entrevista de László Krasznahorkai, ao jornal Público, que poderia destacar, desde logo a ideia da beleza. Diz o autor que ‘’há dentro de nós um espaço reservado para aquilo que ultrapassa a experiência’‘ e que neste ‘’mundo fragmentado e inseguro, talvez seja a beleza, mais do que a fé, aquilo que ainda consegue preencher esse espaço.
Mas o que mais me prendeu foi a total convicção do fim do mundo tal como o conhecemos. Não é nova esta ideia, muita gente pressente esse fim, mas é difícil de explicá-lo. Não para Krasznahorkai, aparentemente: ‘’Ninguém deve esperar uma substituição completa de uma civilização por outra. O que existe é apenas uma deslocação do centro de gravidade do poder. Mas isso, em si, não tem verdadeira importância. Tudo acabará por se transformar de forma abrangente, à escala global’‘. Poderia continuar com citações, mas resumindo (e, talvez, reduzindo) o que o escritor diz é que todas as culturas desaparecerão e transformar-se-ão em algo completamente novo que será igual no mundo inteiro.
Que mundo será esse? E será necessariamente pior? Não temos como saber. A ver pelo que estamos a viver agora não há como não temer o pior, mas o mundo tem arranjado sempre forma de sobreviver. Apesar de todos os horrores, fomos sempre capazes de reconhecer a beleza. Precisamos é de nos ver livres da vaidade. Eu assino uma petição para substituir o sétimo pecado mortal. Em vez da preguiça deveria estar lá a vaidade.
Quanto à lagarta, não sei se ainda está no processo de transformação, ou se, tal como acontece com a maioria, ficou pelo caminho. Neste artigo fiquei a saber que na Natureza só 10% conseguem chegar de lagarta a borboleta. A minha varanda não é um jardim, mas tudo está a acontecer naturalmente, sem a minha intervenção, e apesar de eu achar que não vai sair dali nenhuma borboleta, parece-me que o casulo não está totalmente desprovido de vida. Talvez esteja só a assistir à morte de um estado antes de passar a outro. Esta lagarta quer que eu aprenda que é preciso morrer para nascer de novo. Temos a Absolem, a existencialista, de Lewis Carol e temos a minha Elisua, a heraclítica.

